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Durante mais de seis meses, fez esta Junta de Freguesia uma exaustiva procura sobre o maior numero de assuntos relacionados com antigos costumes e lendas, tradições, património, ensino, cultura, desporto e de um modo geral , tudo o que estivesse relacionado com esta Freguesia. Não foi fácil, mas com a colaboração de muitas e boas pessoas, reuniu-se tudo num livro com um conjunto de grandes e antigas fotografias, que vem contribuir para um maior conhecimento da história desta Freguesia de Oliveira do Hospital . Foi já publicada a 2ª edição com novas actualizações no decorrer do  ano de 2003
 
+ Património Religioso
 
 

Oliveira do Hospital -

CAPELA DE SANTA ANA

No ponto mais elevado da colina em que assentam as casas de Oliveira do Hospital, há cerca de 500 anos, os nossos antepassados edificaram uma pequena ermida em honra de Santa Ana, a Padroeira da nossa freguesia. Teria o tamanho da sacristia e da capela-mor, e nela se encontrava um altar com três imagens. Em 1780 começaram a ser levadas a efeito obras de vulto, substituindo a fachada da velha ermida pelo arco cruzeiro e acrescentando as paredes do corpo da capela que hoje temos. Falecido o grande e generoso promotor das obras, Diogo José Faria Magalhães, senhor da Casa de Baixo, a irmandade de Santa Ana ultimou o indispensável, deixando a torre da capela apenas no primeiro corpo, e por cerca de um século! Só em 1911 iria surgir a possibilidade da sua conclusão, com o legado de Maria Cândida Lobo das Neves, falecida em 15 de Janeiro de 1911, e o de Manuel Mendes do Amaral Ribeiro, falecido no mesmo ano: seiscentos e cinquenta mil réis! Iria acabar finalmente a vergonha que os habitantes da paróquia de Oliveira do Hospital sentiam olhando para a torre inacabada há mais de cem anos. E em Junho de 1913, com a torre finalmente concluída, uma lápide com o nome da benemérita senhora era nela colocada, lembrando tão importante melhoramento.  Mas o pior estava para acontecer. No dia 4 de Setembro de 1949, nas festas da Associação dos Bombeiros Voluntários, os foguetes estavam a ser deitados no alto da torre e as fagulhas de um que subia incendiaram os outros. Foi uma explosão pavorosa, como recordam ainda muitos oliveirenses. A torre só não se desmoronou por a explosão ter sido lá no alto e as ameias estarem bem seguras. Passadas algumas horas, alta noite ainda, deflagrou um grande incêndio no telhado. Os estragos causados, em cima pelas chamas e em baixo pela precipitação dos homens, foram consideráveis. Em Maio de 1950, porém, estavam concluídas as obras de reparação levadas então a efeito.

Como se conseguiu satisfazer os encargos inerentes?

Algumas ofertas de pessoas generosas foram surgindo, e o peditório da Santa Missa no Domingo de Páscoa foi destinado a esse fim. Mas foram as mãos abertas da generosa Família Lagos que saldaram as dívidas contraídas, contribuindo ainda para outras beneficiações na capela.

 

O Interior da Capela:

A porta principal é de bom castanho, e ultrapassando-a e ao guarda-vento, também em castanho, encerado, com porta dupla ao centro e uma simples de cada lado, temos diante de nós o interior da capela, amplo e bem proporcionado. Merece uma descrição minuciosa:

A coxia é de pedra lavrada e o resto em mosaico hidráulico. Na capela-mor e em frente dos altares laterais o pavimento era de granito;  para comodidade dos fiéis, em 1953, colocou-se-lhe por cima o sobrado que hoje vemos.  O tecto do corpo da capela é em arco de volta inteira,  de madeira de mogno, enriquecido em 1992 com pintura decorativa. O tecto da capela-mor é igualmente em arco de volta inteira, em madeira de castanho, com pintura decorativa, provavelmente do séc. XVIII.  O coro assenta em arco abatido, em pedra de granito apoiado sobre duas pilastras que emergem do pavimento. Sobre o arco, uma bonita grade de balaústres de castanho. É amplo, e recebe luz de três sacadas rasgadas na frontaria, tendo a do meio varanda pouco saliente. O seu acesso faz-se pela escada da torre.   

Na capela-mor deparam-se-nos dois painéis grandes de azulejo azul do séc. XVIII, um de cada lado, representando o casamento de S. José e Nossa Senhora e, do lado do Evangelho, a fuga para o Egipto, ostentando ambos em baixo um medalhão com legenda em latim. Todos os azulejos são de fabrico muito anterior à grande remodelação da capela dos fins do séc. XVIII.

Nas paredes do corpo da capela, dois púlpitos, um de cada lado.

O retábulo do altar-mor é construção do séc. XVIII. Ergue-se do chão até ao tecto e de parede a parede. Ao centro o altar, com banqueta e sacrário, e, acima e atrás, a tribuna com degraus, escondida por pintura em tela representando o Menino Jesus no ponto mais alto e, descendo, Santa Ana e Nossa Senhora dum lado e S. Joaquim e S. José do outro. Ladeiam-na duas colunas e duas mísulas com as imagens de S. Joaquim e S. José. Por baixo das mísulas duas portas de acesso à sacristia, bem inseridas no conjunto.

Os altares laterais são construção do séc. XIX, elegantes e de certa monumentalidade.

A imagem da Padroeira é constituída por um belo conjunto escultórico, em pedra de Ançã  policromada, representando Santa Ana sentada, tendo ao seu lado esquerdo Nossa Senhora, sentada também, com uma romã na mão esquerda, e o Menino amparado pela mão de Santa Ana, na mesma posição, no meio de ambas, e segurando uma legenda com os dizeres, em português: “Minha Mãe concebeu-me sem pecado”. É uma peça de raro valor artístico, datada do séc. XV, ou princípio do séc. XVI.

Além desta velha imagem, há uma outra, de madeira, representando Santa Ana sentada com a menina ao lado. É esta que vai nas procissões, e em 13 de Junho de 1886 já se encontrava na capela.

Santa Eufêmea é, depois de Santa Ana, a imagem mais antiga existente na capela. É uma bela escultura em madeira, estofada, em tamanho quase natural, e foi adquirida em princípios do séc. XIX..

S. José e S. Joaquim são imagens de madeira relativamente novas. Foram ambas adquiridas em 1905.

A sacristia é um compartimento quadrado com soalho de tábuas, porta de acesso do exterior. O tecto, em gamela, é de castanho, com oito quadros separados por moldura grossa, convergindo todos para um pequeno quadrado, ao centro, com quatro almofadas salientes e policromadas. Os quadros são alusivos a Santa Ana e representam o aparecimento do anjo a S. Joaquim, o encontro de S. Joaquim e Santa Ana, o nascimento de Maria, a apresentação de Maria no templo, o casamento de Nossa Senhora, a morte de Santa Ana, S. José e Nossa Senhora e a apresentação de Jesus no templo. Remontam, com certeza, também ao séc. XVIII.

Na sacristia encontram-se duas oleografias com moldura de madeira e vidro, representando o Sagrado Coração de Jesus e o Imaculado Coração de Maria, um pequeno quadro de Nossa Senhora (A Virgem da Cadeira), em moldura com vidro, e o quadro de S. João,  riquíssima pintura sobre tela, várias vezes restaurada, e que, segundo informação paroquial, já se encontrava nesta capela em 1721.

Os belos vitrais que agora embelezam a capela foram colocados em 1994, substituindo os vidros dos velhos janelões em ferro.

Com início no ano de 1987, e durante os sete anos subsequentes, a capela de Santa Ana foi completamente restaurada, procedendo-se à substituição do tecto de consolidação do coro, à substituição do soalho da sacristia, à substituição e pintura do tecto, ao restauro, pintura e douramento de todos os altares e do tecto da capela-mor, púlpitos,  tocheiros e castiçais, e foi colocado um relógio electrónico até aí inexistente.

O adro é um largo e belo espaço que circunda a capela de todos os lados. Foi em 19 de Fevereiro de 1888 que a Mesa da Confraria pôs em arrematação a escada e o muro de suporte do terraço do lado voltado a Sul, com a condição de as obras estarem concluídas no dia da festa de Santa Ana. O pagamento, em duas prestações, importaria em 67.500 reis, e é de crer que os compromissos tivessem sido honrados. Porém, não é esta a escada que hoje temos. Os degraus antigos tinham focinho ou borcelo, que pela sua fragilidade e mau trato dos homens foi partindo, de tal modo que, na impossibilidade de uma reparação duradoura e decente, foram  totalmente substituídos em 1949. Mais tarde, em sessão de 16 de Outubro de 1898, a Mesa deliberou proceder à arrematação relativa à construção dos muros de Poente e Norte. O orçamento apresentado e aceite foi de 64.840 reis. E o muro a Nascente? No arquivo, e com data de 30 de Janeiro de 1901, encontra-se a minuta do ofício da Mesa da Confraria endereçada a Sua Majestade El-Rei D. Carlos e que nos ajuda a entender o que se terá passado. Aquando da abertura da estrada que conduz a Lagares, em substituição do velho caminho que conduzia ao cemitério e a Gavinhos, as Obras Públicas entraram um bom pedaço no adro da capela, assumindo compromissos que depois não cumpriram totalmente. Levantaram o muro mas não o completaram, nem fizeram a escada de acesso ao lado do Norte. Daí as queixas do Padre José Rodrigues Lobo e os rogos a Sua Majestade para que o Ministério das Obras Públicas ordenasse a conclusão do muro e a construção de uma nova escada, já que a antiga tinha sido inutilizada. No referido ofício encontra-se, ao cimo da primeira página, uma anotação posterior: «Foi concedida uma verba para aquelas obras». Finalmente estava murado o adro da capela de Santa Ana, e com duas escadas de acesso, uma voltada a Sul, com degraus lavrados, larga e bonita, outra, no ângulo de Nordeste, desdobrada ao longo da estrada, em alvenaria de pico grosso. Muita, muita terra foi conduzida à cabeça de mulheres e raparigas da vila para regularizar o terreno do adro: 1.400 reis de pagamento para esse efeito se encontram registados no livro de contas de Maio de 1901. A 4 de Junho de 1905 estava colocado o gradeamento de ferro numa parte do muro, oferta do Dr. Adelino Júlio Mendes de Abreu. O portão foi colocado a seguir por ordem do Dr. Joaquim Ribeiro do Amaral, e em 1912 teve lugar o gradeamento do lado a Sul (trabalho entregue a Elísio da Costa Leitão a 55 reis o quilo), e ainda o gradeamento do lado a Nascente. Decorreram muitos anos até que fosse colocado o gradeamento do lado voltado a Norte. Finalmente a oportunidade surgiu, em 1949, com mais uma oferta da  generosa família Lagos para esse efeito.

Bandeiras:

Das três existentes convém referir a mais antiga, provavelmente do séc. XVIII e restaurada em 1884. É uma belíssima tela pintada a óleo, representando dum lado Santa Ana e do outro a apresentação de Maria no templo. Encontra-se em razoável estado de conservação.

IGREJA MATRIZ

A Igreja  Matriz de Oliveira do Hospital tem como titular a Exaltação de Santa Cruz. Antes de 1288 o orago era São João Baptista, o que facilmente se compreende, visto Oliveira ser Comenda dos Cavaleiros do Hospital. Originalmente românico-gótica, sofreu grandes transformações em meados do séc. XVIII, conservando no conjunto, porém, três capelas dos sécs. XIII e XIV: a Capela dos Ferreiros, que tem como titular tradicional Nossa Senhora da Graça, gótica; a Capela de S. Brás, de 1571, gótica, e a Capela de Nossa Senhora da Expectação, do séc. XVIII. A fachada da igreja mostra os cunhais em forma de pilastras, ligados por cornija, a qual separa a secção alta que forma a empena onde, em lápide bem visível, podemos ler a data das transformações sofridas:

DNJC

MDCCLI

ANNO

Ou seja, em português corrente, ano do Nosso Senhor Jesus Cristo de 1751.

O portado principal, bonito no seu arranjo de cantaria, encontra-se protegido por uma varanda com balaustrada, para a qual se abre uma porta de sacada de ligação ao coro e de iluminação ao corpo da igreja. Dois nichos ladeiam essa varanda, contendo duas imagens valiosas em pedra calcária da região de Outil: Nossa Senhora e S. João Evangelista. o segundo corpo da torre e no primeiro, de acesso ao coro e à balaustrada, a O Interior da Igreja:

Ultrapassado o guarda-vento de duas portas ao centro e uma de cada lado, almofadadas, com vidro a partir do meio, encontramo-nos dentro do lugar sagrado. O conjunto que se nos depara é belo, harmonioso e muito equilibrado. Em 1 de Janeiro de 1775, o vigário José de Almeida Leitão Vasconcelos escreveu nas Informações Paroquiais: “A Egreja desta freguesia he um templo magnífico que presentemente se anda acabando de reformar. Tem tres altares e tres capelas unidas às paredes da mesma Egreja...” Chamam logo a nossa atenção as pias de água benta, em granito, e emergindo delas duas colunas também em granito, que sustentam o coro. Levantando os olhos, o tecto oferece-nos uma bonita pintura vinda também do séc. XVIII. Em semicírculo, embora de nível artificial, no dizer do insigne mestre P.e António Nogueira Gonçalves “é belo e deleita os olhos”: representa o Céu, onde os anjos e os santos adoram o Divino Cordeiro. A pintura, porém, não se estende à parte correspondente ao coro. Adivinha-se porquê. É que a pintura deve ter surgido apenas após as grandes obras que em 1775 estavam em fase de acabamento. E o centro da pintura corresponde ao centro do tecto da igreja.

Avancemos.

Ao nosso lado esquerdo o baptistério, com o seu bonito painel em azulejo e a artística grade, um confessionário em castanho e mais acima a porta ogival de acesso à Capela dos Ferreiros, e depois o púlpito, setecentista, com acesso pela Capela de S. Brás. Lá ao cimo, a capela-mor, definida pelo arco cruzeiro, com o retábulo principal de madeira entalhada e polícroma, de quatro colunas torcidas, do princípio do séc. XVIII. A tela representa o imperador de Constantinopla, Heraclio,  ladeado pelo patriarca Zacarias, bispo de Jerusalém, e acompanhado de muitas figuras, festejando a Exaltação da Santa Cruz, que ocorreu nos princípios do séc. VII. No altar, tanto na tela como no retábulo,  a Cruz de Malta. Integrado no retábulo, o sacrário, encimado por uma cruz, e ainda duas mísulas com redoma de vidro, protegendo duas imagens deste século: Nossa Senhora de Fátima e Santa Teresinha do Menino Jesus.

Os altares laterais, altos, esbeltos e de uma certa grandiosidade, mostram-nos as  imagens do Sagrado Coração de Jesus e de Nossa Senhora da Conceição. Ao lado dos altares laterais dois arcos, um de acesso à Capela de S. Brás e outro à Capela de Nossa Senhora da Expectação. Serão ambos do séc. XVI. É que a igreja vinha já dos sécs. XIII-XIV, como nos informa o Inventário Artístico de Portugal – Distrito de Coimbra, e foi passando por sucessivas transformações. Em 1721, a 5 de Maio, o vigário Alexandre escrevia: “Esta Egreja consta ser antiquíssima e não há quem dê notícia da sua erecçam”. A comprová-lo, basta olhar para as paredes. Lá se encontram algumas pedras à vista, que testemunham bem terem vindo de construção bem mais antiga: ostentam siglas, cruzes e pedaços de letreiros góticos, colocados com a preocupação apenas de fazer parede.

Transponhamos o arco de acesso à capela de S. Brás. Na parede entre a porta lateral da Igreja Matriz e a janela, numa lápide em pedra de Ançã, está a “certidão de nascimento” da capela. Foi construída em 1571 pelo licenciado Melchior Fernandez e sua esposa para lhes servir de sepultura após a morte. Inicialmente uma única imagem: a de S. Brás, vestido de bispo, com mitra e báculo, e um menino ajoelhado a seus pés, a mão do santo tocando-lhe o pescoço. É que S. Brás, médico cristão, decapitado em 316 por afirmar corajosamente a sua fé em Deus, é bem conhecido da nossa gente cristã e venerado e invocado justificadamente como advogado dos males da garganta. Honramo-lo a 3 de Fevereiro, dia da Feira  Anual de S. Brás, que presumimos tenha origem numa festa religiosa em honra do Santo.

Posteriormente, o Grão-Prior da Ordem de Malta deve ter-se interessado pelas obras que decorreram no final do séc. XVIII e promovido a instalação do altar com o retábulo, que ostenta a Cruz de Malta. Nele podemos encontrar também as imagens de S. Sebastião e da Senhora do Pranto. As pinturas do tecto, enquadradas em molduras grossas representando o Espírito Santo e figuras do Antigo Testamento, devem ter sido feitas na mesma altura. Frente ao arco manuelino da Capela de S. Brás, na parede voltada a Sul, depara-se-nos um outro arco, mais recente, guarnecido de grades em ferro forjado. Para além do arco, a Capela de Nossa Senhora da Expectação, também conhecida pelo nome de Capela da Casa de Baixo. Trata-se de uma capela tumular posterior à Capela de S. Brás e à Capela dos Ferreiros. Foi construída nos princípios do séc. XVII pelo fundador da Casa de Baixo, hoje Museu da Fundação Dona Maria Emília de Vasconcelos Cabral. A capela é pequena, de chão de tábuas, com altar integrado em bonito retábulo, tudo em castanho marmoreado róseo e dourado. Ao centro do altar o nicho com a linda imagem da Senhora da Expectação; de lado, duas mísulas, uma com S. Francisco de Assis e outra com S. Domingos de Gusmão.

As paredes encontram-se revestidas de azulejos do séc. XVIII, de um azul vivo, com pilares e remates recortados. Vêem-se à nossa esquerda Nossa Senhora das Dores com Jesus morto, e à nossa direita o Menino no presépio, rodeado de pastores. A moldura superior dos azulejos contorna o arco que alberga o túmulo do fundador, Jorge de Faria Garcês, fidalgo da casa de Sua Majestade. Acima do arco a pedra com o brasão.

O tecto é um arco de volta perfeita, todo em castanho e com pintura do séc. XVIII. Tem como fundo um belo arranjo arquitectónico, e ao centro Nossa Senhora da Assunção subindo ao Céu acompanhada de anjos. Do nosso lado esquerdo S. Tomás e Santa Eufêmea, e do lado direito S. Diogo e S. Bernardo. A iluminar a capela e a sacristia (pequeno compartimento com lavabo de cantaria), duas pequenas janelas, voltadas a Sul.

Como era piedoso costume, os mortos eram sepultados em tempos idos nas igrejas, e a nossa Igreja Matriz ainda guarda dentro dela três capelas fúnebres: a Capela dos Ferreiros  (meados do séc. XIII), a Capela de São Brás (fins do séc. XVI) e a Capela de Nossa Senhora da Expectação (princípios do séc. XVII).Mas muitos, muitos ancestrais nossos, de gerações sucessivas, foram sepultados no adro da nossa igreja, até que um decreto de 1835 proibiu os sepultamentos fora dos cemitérios, cujas construções já tinham sido legisladas em 1805 e 1806.

A acta da Junta de Paróquia de 28 de Maio de 1871 informa-nos que em 30 de Maio de 1869 se tinha procedido à arrematação inicial que levaria à construção do Cemitério Paroquial da freguesia de Oliveira do Hospital, sendo arrematante João Manuel Fernandes, de Coja, que morreu deixando o trabalho meio feito. Chamados outros artistas para a conclusão da obra, estes avaliaram o trabalho feito em 197.000 reis e o trabalho por fazer em 220.000 reis, não entrando neste valor o preço das portas de ferro, que estavam orçamentadas em 74.740 reis e a condução da pedra, arrematada por 121.500 reis. O novo cemitério iria, assim, custar 613.240 reis. Por decreto de 27 de Agosto de 1868  a Fábrica da Igreja é autorizada a fornecer 404.145 reis para pagamento da obra, e em 3 de Abril de 1872 a Junta reúne extraordinariamente e o Padre Albino Alves Tavares informa ter recebido o Ofício n.º 49 – 1.ª Repartição do Governo Civil, de 26 de Março de 1872  autorizando a Junta de Paróquia a distractar o resto da importância necessária ao pagamento da conclusão do cemitério.

Levadas a efeito duas arrematações, não apareceu nenhum concorrente para terminar a tarefa encetada. Dois irmãos pedreiros aceitaram acabá-la, e assim a Junta requereu licença ao Governador Civil para fazer as obras por administração directa. Recebida a resposta afirmativa em 4 de Agosto de 1872, recomeçaram os trabalhos que novamente se viram dificultados pela falta de dinheiro suficiente para os mesmos. O Padre Albino recorreu então aos devedores da Fábrica da Igreja, depois de devidamente autorizado pela Junta de Paróquia em 18 de Dezembro de 1872, a fim de serem aplicadas as suas dívidas à conclusão do cemitério, mas não viu realizado o seu sonho: faleceu em 3 de Maio de 1873, com 45 anos de idade, e foi sepultado, naturalmente, no adro da Igreja.

Sucedeu-lhe o Padre Manuel Coelho da Fonseca, que procedeu à benção do novo cemitério em 4 de Junho de 1874, depois de obtida a licença do Prelado de Coimbra. A injusta lei dos homens, porém, ditou que uma parte do cemitério não seria benzida porque “destinada aos abortos e defuntos sem direito a sepultura eclesiástica”, o que, no entanto, não libertava os familiares daqueles de pagarem, pelo sepultamento, 600, 400, 300, 240, 200 e 100 reis, consoante as circunstâncias.

E o primeiro enterro não se fez tardar. O óbito ocorreu em Oliveira no dia 25 de junho de 1874, às 8 horas da tarde:  o finado chamava-se José Pires, tinha 60 anos de idade e foi o primeiro de uma série de 22 que se encontram registados ao longo desse ano de 1874.

Este cemitério não tinha, no entanto, a dimensão que hoje lhe conhecemos.

O desaterro que cavou um profundo fosso entre a capela de Santa Ana e o cemitério, desaterro provocado pela construção da estrada distrital n.º 230, deixou o cemitério sem acesso. Em sessão de 12 de Julho de 1876 a Junta de Paróquia reuniu e deliberou solicitar ao Director das Obras Públicas do Distrito de Coimbra a construção de uma escada de acesso em frente ao pórtico, com muros laterais. O pedido foi aceite e atendido.

 Em Fevereiro de 1912 procedeu-se a uma primeira ampliação, pequena, em terreno gratuitamente cedido pelo senhor Conselheiro Dr. Francisco Cabral Metelo.

O tempo mostrou, depois, que a escada de acesso ao cemitério construída frente ao pórtico não se mostrava muito funcional. E em sessão de 17 de Agosto de 1913 a Comissão Paroquial deliberou mudar a escada para o lado sul do átrio  e  construir  um muro de suporte. Não encontramos acta que nos elucide sobre os preços, os prazos e o arrematante. Mas lá estão o muro e a escada, muito bem feitos.

 Em 1912  os membros da Junta tinham sido bem modestos no seu pedir.  Com efeito, em 1923, novamente o senhor Conselheiro Cabral Metelo voltou a ser solicitado no sentido de conceder mais terreno para uma segunda ampliação do cemitério, solicitação aceite de imediato, pedindo em troca que lhe reservassem uma sepultura perpétua “para aplicar como lhe aprouver.” Em 9 de Agosto de 1925  estava tudo terminado e foram autorizados os pagamentos dos trabalhos: 5.330$00, de aumento dos muros e respectiva caiação.

A sebe que enfeita o átrio foi plantada em 1949. Ainda nesse ano o senhor Manuel Rodrigues Lagos pagou as obras de limpeza dos muros e paredes de alvenaria, pintura da porta de entrada e limpeza de socos e capeados. O gradeamento, colocado bastante depois, ficou a dever-se à generosidade do referido benfeitor oliveirense, receoso que algum incauto caísse do muro para baixo.

Ultimamente, a Junta de Freguesia efectuou a pavimentação a cubos da rua interior do cemitério e a Câmara Municipal, devido à urbanização do bairro de Santa Ana e do terreno da feira, procedeu a uma terraplanagem bastante grande, deixando apenas no local o depósito das águas que então abastecia a vila, e construindo uma sapata de cimento para suporte das cantarias e muros rusticados. As duas entidades procederam ainda à electrificação do cemitério e à reparação total da capela.

Além deste Cemitério Paroquial da Freguesia de Oliveira do Hospital existe ainda o Cemitério Municipal, construído em 1979/1980, em terrenos doados pelo senhor Manuel Rodrigues Lagos.

CAPELA DOS FERREIROS – MONUMENTO NACIONAL

SÉC. XIII – 1279

Entra-se nela através do corpo da Igreja Matriz, por porta em ogiva guarnecida de ferro forjado.

Interiormente, pavimento, paredes e tecto em  abóbada de berço quebrado, tudo em pedra de granito, lisa e aparelhada, encerram um verdadeiro museu de escultura. Na parede do lado voltado a Norte, dois óculos largos que se vão estreitando de forma quadrilobada. Exteriormente esta parede apresenta-se também em fiadas de pedra aparelhada e guarnecida de contraforte em dois degraus, em simetria com os óculos.

E o conteúdo da capela?

Do nosso lado esquerdo, quando se entra, dois túmulos, um ao lado do outro, com a cabeceira a Poente, guardando os restos mortais dos fundadores. São constituídos de duas arcas lisas de granito, assentes em leões de granito também, e tendo como tampas duas pedras de calcário de Portunhos. Nelas, o escultor, o mestre aragonês Pero (ou Pedro), esculpiu primorosamente as figuras de Domingos Joanes e de sua esposa Domingas Sabachais: ele, vigoroso, austero e lutador, de longa cabeleira e barbas  pendentes, de espada na mão esquerda e na direita umas luvas, os pés apoiados no dorso de um cão. De junto da cabeça emerge um anjo, e do lado direito o brasão com a cruz em X, Cruz de Santo André, e quatro flores-de-lis; ela, fina e graciosa, repousa tranquila, reclinada para o lado do marido, os pés igualmente apoiados no dorso de um cão. São duas primorosas estátuas jacentes, finamente lavradas. Contrastam com as arcas rudes e sem ornamentos, e com os leões, quase grotescos, que lhes servem de suporte.

Nas tampas fúnebres, e no retábulo, existem letreiros insculpidos em escrita cursiva. Os de mais forte gravação são os do altar e  os dos nomes das figuras jacentes, no tipo dos sécs. XV-XVI, aventando-se a possibilidade de tais inscrições terem sido realizadas por ordem do grão-mestre de Rodes, André do Amaral, quando em 1515 renovou a carta de brasão, incluindo neste as armas do seu 5.º avô, o Domingos Joanes.

Na parede Poente, em cima, uma grosseira mísula e em cima dela a estátua equestre do cavaleiro, atribuída igualmente ao mestre aragonês, representando Domingos Joanes equipado e pronto para entrar em combate: de armadura, com os arreios de equitação e maça de armas, destinado a parada militar, armado de um escudo com a heráldica familiar de flores-de-lis. É exemplar único, vindo desse recuado séc. XIII, e de valor incalculável. No Museu Machado de Castro, em Coimbra, existe uma réplica, executada com tanta perfeição que tem suscitado algumas interrogações (Qual o “original”?).

Voltando-nos para o lado direito, deparamos com o altar, constituído por espaçosa mesa de granito, assente sobre duas colunas desiguais que não terão sido feitas para ali. Sobre o altar, o retábulo gótico de pedra calcária, e nele, em alto relevo, Domingos Joanes e Domingas Sabachais em devota veneração da Senhora da Graça, um anjo de cada lado e ainda o sol e a lua. Em cima uma legenda dizendo: “Deus he Grande”. Mais acima ainda, outra imagem de Nossa Senhora da Graça, mas esta muito mais linda. Por detrás, uma fresta de ligação à Capela de S. Brás, formando como que um nicho da veneranda imagem.

Desta capela disse o escritor Miguel Torga: “Quem quiser ver a Idade Média ao natural, venha aqui, a esta Capela dos Ferreiros. A cavalaria, a religião e o amor, tudo na sua pureza natural.”

 

Não será inoportuno falar das “andanças do Cavaleiro”, a estátua equestre que foi há muito baptizada também como “Cavaleiro de Oliveira” e que representa o grande ex-libris desta freguesia:

Em Lisboa, figurou na Exposição do Mundo Português, e,  mais recentemente, na Europália. No Porto, numa exposição no Soares dos Reis, com subsequente partida para uma grande exposição em Madrid.

CAPELA DE SANTO ANTÃO

         Trata-se de uma capela não muito antiga, erigida já no séc. XIX, embora a imagem de Santo Antão, presentemente  na  sacristia da Igreja Matriz, pareça ser do séc. XVIII.

         Construída mesmo ao lado de Santa Ana, mas em plano inferior, no local onde hoje se situa o parque infantil, parece ter sido edificada com materiais da velha capela de S. João, e daí o facto de o inventário de 1884, sob o nº. 2, mencionar “uma pequena capela denominada de S. João”.

         Em sessão de 6 de Fevereiro de 1916 foi dada autorização à Junta de Freguesia para transferir a capela para junto do cemitério, continuando, no entanto, na posse da Confraria de Santa Ana. A ampliação do cemitério obrigou a reconstruí-la, não junto mas dentro do próprio cemitério, o que aconteceu até 1922, quando em 31 de Dezembro foram feitos os últimos pagamentos pela sua transferência.

Em Maio de 1999, e para lhe devolver o carácter sagrado, sofreu profundas obras de restauro,  feitas pela Câmara Municipal em colaboração com a Junta de Freguesia, tendo esta última adquirido também os bancos em madeira e uma belíssima e muito valiosa imagem de Nossa Senhora das Dores, em madeira, para o seu interior.

Nas povoações anexas, a freguesia de Oliveira do Hospital conserva ainda outros edifícios religiosos, como sejam:

Em Gavinhos de Cima, a Capela de Nossa Senhora da Graça.

Em Gavinhos de Baixo, a Capela de S. Sebastião (sécs. XVII-XVIII);  a Capela do Bussaquito e a Capela de Nossa Senhora do Carmo (esta última pertencente à família Lagos).

Em Vendas de Gavinhos, os Oratórios de Nossa Senhora de Fátima e de Nossa Senhora dos Aflitos, ou Senhora dos Caminhos.

Em Gramaços, a Capela de Nossa Senhora da Luz e a Capela de Santa Eufêmea, esta última, do séc. XVIII, particular da família Vaz Pato.

 

As alminhas marcam também presença na  nossa freguesia. São pequenos e singelos monumentos de piedade religiosa, localizados em caminhos, encruzilhadas, por montes e vales, e feitos normalmente em pedra. Objectivavam rezar “às almas que penam no purgatório” e eram outrora muito utilizadas por pessoas que, ao passar diante do monumento, faziam a “reza às almas penadas”:

“Dai-lhes, Senhor, o eterno descanso, entre os esplendores da Luz Perpétua. Fazei que descansem em paz. Amen. Pai Nosso. Avé Maria.”

Podemos apreciar várias alminhas situadas em diversos pontos da freguesia; e, mesmo na cidade, encontramos uma no exterior do cemitério novo,  outra no jardim da casa paroquial e uma outra no interior da Câmara Municipal.

A Junta de Freguesia tem sempre mostrado grande disponibilidade para, quando solicitada a intervir, contribuir nas despesas de reparação e conservação do  nosso património histórico.

 
 
 
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