CAPELA
DE SANTA ANA
No ponto mais
elevado da colina em que assentam as casas de
Oliveira do Hospital, há cerca de 500 anos, os
nossos antepassados edificaram uma pequena ermida em
honra de Santa Ana, a Padroeira da nossa freguesia.
Teria o tamanho da sacristia e da capela-mor, e nela
se encontrava um altar com três imagens. Em 1780
começaram a ser levadas a efeito obras de vulto,
substituindo a fachada da velha ermida pelo arco
cruzeiro e acrescentando as paredes do corpo da
capela que hoje temos. Falecido o grande
e generoso promotor das obras, Diogo José Faria
Magalhães, senhor da Casa de Baixo, a irmandade de
Santa Ana ultimou o indispensável, deixando a torre
da capela apenas no primeiro corpo, e por cerca de
um século! Só em 1911 iria surgir a possibilidade da
sua conclusão, com o legado de Maria Cândida Lobo
das Neves, falecida em 15 de Janeiro de 1911, e o de
Manuel Mendes do Amaral Ribeiro, falecido no mesmo
ano: seiscentos e cinquenta mil réis! Iria acabar
finalmente a vergonha que os habitantes da paróquia
de Oliveira do Hospital sentiam olhando para a torre
inacabada há mais de cem anos. E em Junho de 1913,
com a torre finalmente concluída, uma lápide com o
nome da benemérita senhora era nela colocada,
lembrando tão importante melhoramento.
Mas o pior estava para acontecer. No dia 4 de
Setembro de 1949, nas festas da Associação dos
Bombeiros Voluntários, os foguetes estavam a ser
deitados no alto da torre e as fagulhas de um que
subia incendiaram os outros. Foi uma explosão
pavorosa, como recordam ainda muitos oliveirenses. A
torre só não se desmoronou por a explosão ter sido
lá no alto e as ameias estarem bem seguras. Passadas
algumas horas, alta noite ainda, deflagrou um grande
incêndio no telhado. Os estragos causados, em cima
pelas chamas e em baixo pela precipitação dos
homens, foram consideráveis. Em Maio de 1950, porém,
estavam concluídas as obras de reparação levadas
então a efeito.
Como se conseguiu
satisfazer os encargos inerentes?
Algumas ofertas
de pessoas generosas foram surgindo, e o peditório
da Santa Missa no Domingo de Páscoa foi destinado a
esse fim. Mas foram as mãos abertas da generosa
Família Lagos que saldaram as dívidas contraídas,
contribuindo ainda para outras beneficiações na
capela.

O Interior da
Capela:
A porta principal
é de bom castanho, e ultrapassando-a e ao
guarda-vento, também em castanho, encerado, com
porta dupla ao centro e uma simples de cada lado,
temos diante de nós o interior da capela, amplo e
bem proporcionado. Merece uma descrição minuciosa:
A coxia é de
pedra lavrada e o resto em mosaico hidráulico. Na
capela-mor e em frente dos altares laterais o
pavimento era de granito; para comodidade dos
fiéis, em 1953, colocou-se-lhe por cima o sobrado
que hoje vemos. O tecto do corpo da
capela é em arco de volta inteira, de madeira de
mogno, enriquecido em 1992 com pintura decorativa. O
tecto da capela-mor é igualmente em arco de volta
inteira, em madeira de castanho, com pintura
decorativa, provavelmente do séc. XVIII.
O coro assenta em arco abatido, em pedra de granito
apoiado sobre duas pilastras que emergem do
pavimento. Sobre o arco, uma bonita grade de
balaústres de castanho. É amplo, e recebe luz de
três sacadas rasgadas na frontaria, tendo a do meio
varanda pouco saliente. O seu acesso faz-se pela
escada da torre.
Na
capela-mor deparam-se-nos dois painéis grandes de
azulejo azul do séc. XVIII, um de cada lado,
representando o casamento de S. José e Nossa Senhora
e, do lado do Evangelho, a fuga para o Egipto,
ostentando ambos em baixo um medalhão com legenda em
latim. Todos os azulejos são de fabrico muito
anterior à grande remodelação da capela dos fins do
séc. XVIII.
Nas paredes do
corpo da capela, dois púlpitos, um de cada lado.
O retábulo do
altar-mor é construção do séc. XVIII. Ergue-se do
chão até ao tecto e de parede a parede. Ao centro o
altar, com banqueta e sacrário, e, acima e atrás, a
tribuna com degraus, escondida por pintura em tela
representando o Menino Jesus no ponto mais alto e,
descendo, Santa Ana e Nossa Senhora dum lado e S.
Joaquim e S. José do outro. Ladeiam-na duas colunas
e duas mísulas com as imagens de S. Joaquim e S.
José. Por baixo das mísulas duas portas de acesso à
sacristia, bem inseridas no conjunto.
Os altares
laterais são construção do séc. XIX, elegantes e de
certa monumentalidade.
A imagem da
Padroeira é constituída por um belo conjunto
escultórico, em pedra de Ançã policromada,
representando Santa Ana sentada, tendo ao seu lado
esquerdo Nossa Senhora, sentada também, com uma romã
na mão esquerda, e o Menino amparado pela mão de
Santa Ana, na mesma posição, no meio de ambas, e
segurando uma legenda com os dizeres, em português:
“Minha Mãe concebeu-me sem pecado”. É uma peça de
raro valor artístico, datada do séc. XV, ou
princípio do séc. XVI.
Além desta velha
imagem, há uma outra, de madeira, representando
Santa Ana sentada com a menina ao lado. É esta que
vai nas procissões, e em 13 de Junho de 1886 já se
encontrava na capela.
Santa Eufêmea é,
depois de Santa Ana, a imagem mais antiga existente
na capela. É uma bela escultura em madeira,
estofada, em tamanho quase natural, e foi adquirida
em princípios do séc. XIX..
S. José e S.
Joaquim são imagens de madeira relativamente novas.
Foram ambas adquiridas em 1905.
A sacristia é um
compartimento quadrado com soalho de tábuas, porta
de acesso do exterior. O tecto, em gamela, é de
castanho, com oito quadros separados por moldura
grossa, convergindo todos para um pequeno quadrado,
ao centro, com quatro almofadas salientes e
policromadas. Os quadros são alusivos a Santa Ana e
representam o aparecimento do anjo a S. Joaquim, o
encontro de S. Joaquim e Santa Ana, o nascimento de
Maria, a apresentação de Maria no templo, o
casamento de Nossa Senhora, a morte de Santa Ana, S.
José e Nossa Senhora e a apresentação de Jesus no
templo. Remontam, com certeza, também ao séc. XVIII.
Na sacristia
encontram-se duas oleografias com moldura de madeira
e vidro, representando o Sagrado Coração de Jesus e
o Imaculado Coração de Maria, um pequeno quadro de
Nossa Senhora (A Virgem da Cadeira), em moldura com
vidro, e o quadro de S. João, riquíssima pintura
sobre tela, várias vezes restaurada, e que, segundo
informação paroquial, já se encontrava nesta capela
em 1721.
Os belos vitrais
que agora embelezam a capela foram colocados em
1994, substituindo os vidros dos velhos janelões em
ferro.
Com início no ano
de 1987, e durante os sete anos subsequentes, a
capela de Santa Ana foi completamente restaurada,
procedendo-se à substituição do tecto de
consolidação do coro, à substituição do soalho da
sacristia, à substituição e pintura do tecto, ao
restauro, pintura e douramento de todos os altares e
do tecto da capela-mor, púlpitos, tocheiros e
castiçais, e foi colocado um relógio electrónico até
aí inexistente.
O adro é um largo
e belo espaço que circunda a capela de todos os
lados. Foi em 19 de Fevereiro de 1888 que a Mesa da
Confraria pôs em arrematação a escada e o muro de
suporte do terraço do lado voltado a Sul, com a
condição de as obras estarem concluídas no dia da
festa de Santa Ana. O pagamento, em duas prestações,
importaria em 67.500 reis, e é de crer que os
compromissos tivessem sido honrados. Porém, não é
esta a escada que hoje temos. Os degraus antigos
tinham focinho ou borcelo, que pela sua fragilidade
e mau trato dos homens foi partindo, de tal modo
que, na impossibilidade de uma reparação duradoura e
decente, foram totalmente substituídos em 1949.
Mais tarde, em sessão de 16 de Outubro de 1898, a
Mesa deliberou proceder à arrematação relativa à
construção dos muros de Poente e Norte. O orçamento
apresentado e aceite foi de 64.840 reis. E o muro a
Nascente? No arquivo, e com data de 30 de Janeiro de
1901, encontra-se a minuta do ofício da Mesa da
Confraria endereçada a Sua Majestade El-Rei D.
Carlos e que nos ajuda a entender o que se terá
passado. Aquando da abertura da estrada que conduz a
Lagares, em substituição do velho caminho que
conduzia ao cemitério e a Gavinhos, as Obras
Públicas entraram um bom pedaço no adro da capela,
assumindo compromissos que depois não cumpriram
totalmente. Levantaram o muro mas não o completaram,
nem fizeram a escada de acesso ao lado do Norte. Daí
as queixas do Padre José Rodrigues Lobo e os rogos a
Sua Majestade para que o Ministério das Obras
Públicas ordenasse a conclusão do muro e a
construção de uma nova escada, já que a antiga tinha
sido inutilizada. No referido ofício encontra-se, ao
cimo da primeira página, uma anotação posterior:
«Foi concedida uma verba para aquelas obras».
Finalmente estava murado o adro da capela de Santa
Ana, e com duas escadas de acesso, uma voltada a
Sul, com degraus lavrados, larga e bonita, outra, no
ângulo de Nordeste, desdobrada ao longo da estrada,
em alvenaria de pico grosso. Muita, muita terra foi
conduzida à cabeça de mulheres e raparigas da vila
para regularizar o terreno do adro: 1.400 reis de
pagamento para esse efeito se encontram registados
no livro de contas de Maio de 1901. A 4 de Junho de
1905 estava colocado o gradeamento de ferro numa
parte do muro, oferta do Dr. Adelino Júlio Mendes de
Abreu. O portão foi colocado a seguir por ordem do
Dr. Joaquim Ribeiro do Amaral, e em 1912 teve lugar
o gradeamento do lado a Sul (trabalho entregue a
Elísio da Costa Leitão a 55 reis o quilo), e ainda o
gradeamento do lado a Nascente. Decorreram muitos
anos até que fosse colocado o gradeamento do lado
voltado a Norte. Finalmente a oportunidade surgiu,
em 1949, com mais uma oferta da generosa família
Lagos para esse efeito.
Bandeiras:
Das três
existentes convém referir a mais antiga,
provavelmente do séc. XVIII e restaurada em 1884. É
uma belíssima tela pintada a óleo, representando dum
lado Santa Ana e do outro a apresentação de Maria no
templo. Encontra-se em razoável estado de
conservação.
IGREJA MATRIZ
A Igreja Matriz
de Oliveira do Hospital tem como titular a Exaltação
de Santa Cruz. Antes de 1288 o orago era São João
Baptista, o que facilmente se compreende, visto
Oliveira ser Comenda dos Cavaleiros do Hospital.
Originalmente românico-gótica, sofreu grandes
transformações em meados do séc. XVIII, conservando
no conjunto, porém, três capelas dos sécs. XIII e
XIV: a Capela dos Ferreiros, que tem como titular
tradicional Nossa Senhora da Graça, gótica; a Capela
de S. Brás, de 1571, gótica, e a Capela de Nossa
Senhora da Expectação, do séc. XVIII. A
fachada da igreja mostra os cunhais em forma de
pilastras, ligados por cornija, a qual separa a
secção alta que forma a empena onde, em lápide bem
visível, podemos ler a data das transformações
sofridas:
DNJC
MDCCLI
ANNO
Ou seja, em
português corrente, ano do Nosso Senhor Jesus Cristo
de 1751.
O portado
principal, bonito no seu arranjo de cantaria,
encontra-se protegido por uma varanda com
balaustrada, para a qual se abre uma porta de sacada
de ligação ao coro e de iluminação ao corpo da
igreja. Dois nichos ladeiam essa varanda, contendo
duas imagens valiosas em pedra calcária da região de
Outil: Nossa Senhora e S. João Evangelista. o
segundo corpo da torre e no primeiro, de acesso ao
coro e à balaustrada, a
O Interior da
Igreja:
Ultrapassado o
guarda-vento de duas portas ao centro e uma de cada
lado, almofadadas, com vidro a partir do meio,
encontramo-nos dentro do lugar sagrado. O conjunto
que se nos depara é belo, harmonioso e muito
equilibrado.
Em 1 de Janeiro de 1775, o vigário José de Almeida Leitão Vasconcelos
escreveu nas Informações Paroquiais: “A Egreja desta
freguesia he um templo magnífico que presentemente
se anda acabando de reformar. Tem tres altares e
tres capelas unidas às paredes da mesma Egreja...”
Chamam logo a nossa atenção as pias de água benta,
em granito, e emergindo delas duas colunas também em
granito, que sustentam o coro. Levantando os olhos,
o tecto oferece-nos uma bonita pintura vinda também
do séc. XVIII. Em semicírculo, embora de nível
artificial, no dizer do insigne mestre P.e António
Nogueira Gonçalves “é belo e deleita os olhos”:
representa o Céu, onde os anjos e os santos adoram o
Divino Cordeiro. A pintura, porém, não se
estende à parte correspondente ao coro. Adivinha-se
porquê. É que a pintura deve ter surgido apenas após
as grandes obras que em 1775 estavam em fase de
acabamento. E o centro da pintura corresponde ao
centro do tecto da igreja.
Avancemos.
Ao nosso lado
esquerdo o baptistério, com o seu bonito painel em
azulejo e a artística grade, um confessionário em
castanho e mais acima a porta ogival de acesso à
Capela dos Ferreiros, e depois o púlpito,
setecentista, com acesso pela Capela de S. Brás.
Lá ao cimo, a capela-mor, definida pelo arco
cruzeiro, com o retábulo principal de madeira
entalhada e polícroma, de quatro colunas torcidas,
do princípio do séc. XVIII. A tela representa o
imperador de Constantinopla, Heraclio, ladeado pelo
patriarca Zacarias, bispo de Jerusalém, e
acompanhado de muitas figuras, festejando a
Exaltação da Santa Cruz, que ocorreu nos princípios
do séc. VII. No altar, tanto na tela como no
retábulo, a Cruz de Malta. Integrado no
retábulo, o sacrário, encimado por uma cruz, e ainda
duas mísulas com redoma de vidro, protegendo duas
imagens deste século: Nossa Senhora de Fátima e
Santa Teresinha do Menino Jesus.
Os altares
laterais, altos, esbeltos e de uma certa
grandiosidade, mostram-nos as imagens do Sagrado
Coração de Jesus e de Nossa Senhora da Conceição.
Ao lado dos altares laterais dois arcos, um de
acesso à Capela de S. Brás e outro à Capela de Nossa
Senhora da Expectação. Serão ambos do séc. XVI. É
que a igreja vinha já dos sécs. XIII-XIV, como nos
informa o Inventário Artístico de Portugal –
Distrito de Coimbra, e foi passando por sucessivas
transformações. Em 1721, a 5 de Maio, o vigário
Alexandre escrevia: “Esta Egreja consta ser
antiquíssima e não há quem dê notícia da sua erecçam”.
A comprová-lo, basta olhar para as paredes. Lá se
encontram algumas pedras à vista, que testemunham
bem terem vindo de construção bem mais antiga:
ostentam siglas, cruzes e pedaços de letreiros
góticos, colocados com a preocupação apenas de fazer
parede.
Transponhamos o
arco de acesso à capela de S. Brás. Na parede entre
a porta lateral da Igreja Matriz e a janela, numa
lápide em pedra de Ançã, está a “certidão de
nascimento” da capela. Foi construída em 1571 pelo
licenciado Melchior Fernandez e sua esposa para lhes
servir de sepultura após a morte. Inicialmente uma
única imagem: a de S. Brás, vestido de bispo, com
mitra e báculo, e um menino ajoelhado a seus pés, a
mão do santo tocando-lhe o pescoço. É que S. Brás,
médico cristão, decapitado em 316 por afirmar
corajosamente a sua fé em Deus, é bem conhecido da
nossa gente cristã e venerado e invocado
justificadamente como advogado dos males da
garganta. Honramo-lo a 3 de Fevereiro, dia da Feira
Anual de S. Brás, que presumimos tenha origem numa
festa religiosa em honra do Santo.
Posteriormente, o
Grão-Prior da Ordem de Malta deve ter-se interessado
pelas obras que decorreram no final do séc. XVIII e
promovido a instalação do altar com o retábulo, que
ostenta a Cruz de Malta. Nele podemos encontrar
também as imagens de S. Sebastião e da Senhora do
Pranto. As pinturas do tecto, enquadradas em
molduras grossas representando o Espírito Santo e
figuras do Antigo Testamento, devem ter sido feitas
na mesma altura.
Frente ao arco manuelino da Capela de S. Brás, na parede voltada a Sul,
depara-se-nos um outro arco, mais recente,
guarnecido de grades em ferro forjado. Para além do
arco, a Capela de Nossa Senhora da Expectação,
também conhecida pelo nome de Capela da Casa de
Baixo. Trata-se de uma capela tumular posterior à
Capela de S. Brás e à Capela dos Ferreiros. Foi
construída nos princípios do séc. XVII pelo fundador
da Casa de Baixo, hoje Museu da Fundação Dona Maria
Emília de Vasconcelos Cabral. A capela é pequena, de
chão de tábuas, com altar integrado em bonito
retábulo, tudo em castanho marmoreado róseo e
dourado. Ao centro do altar o nicho com a linda
imagem da Senhora da Expectação; de lado, duas
mísulas, uma com S. Francisco de Assis e outra com
S. Domingos de Gusmão.
As paredes
encontram-se revestidas de azulejos do séc. XVIII,
de um azul vivo, com pilares e remates recortados.
Vêem-se à nossa esquerda Nossa Senhora das Dores com
Jesus morto, e à nossa direita o Menino no presépio,
rodeado de pastores. A moldura superior dos azulejos
contorna o arco que alberga o túmulo do fundador,
Jorge de Faria Garcês, fidalgo da casa de Sua
Majestade. Acima do arco a pedra com o brasão.
O tecto é um arco
de volta perfeita, todo em castanho e com pintura do
séc. XVIII. Tem como fundo um belo arranjo
arquitectónico, e ao centro Nossa Senhora da
Assunção subindo ao Céu acompanhada de anjos. Do
nosso lado esquerdo S. Tomás e Santa Eufêmea, e do
lado direito S. Diogo e S. Bernardo. A iluminar a
capela e a sacristia (pequeno compartimento com
lavabo de cantaria), duas pequenas janelas, voltadas
a Sul.
Como era piedoso
costume, os mortos eram sepultados em tempos idos
nas igrejas, e a nossa Igreja Matriz ainda guarda
dentro dela três capelas fúnebres: a Capela dos
Ferreiros (meados do séc. XIII), a Capela de São
Brás (fins do séc. XVI) e a Capela de Nossa Senhora
da Expectação (princípios do séc. XVII).Mas muitos,
muitos ancestrais nossos, de gerações sucessivas,
foram sepultados no adro da nossa igreja, até que um
decreto de 1835 proibiu os sepultamentos fora dos
cemitérios, cujas construções já tinham sido
legisladas em 1805 e 1806.
A acta da Junta
de Paróquia de 28 de Maio de 1871 informa-nos que em
30 de Maio de 1869 se tinha procedido à arrematação
inicial que levaria à construção do Cemitério
Paroquial da freguesia de Oliveira do Hospital,
sendo arrematante João Manuel Fernandes, de Coja,
que morreu deixando o trabalho meio feito. Chamados
outros artistas para a conclusão da obra, estes
avaliaram o trabalho feito em 197.000 reis e o
trabalho por fazer em 220.000 reis, não entrando
neste valor o preço das portas de ferro, que estavam
orçamentadas em 74.740 reis e a condução da pedra,
arrematada por 121.500 reis. O novo cemitério iria,
assim, custar 613.240 reis. Por decreto de 27 de
Agosto de 1868 a Fábrica da Igreja é autorizada a
fornecer 404.145 reis para pagamento da obra, e em 3
de Abril de 1872 a Junta reúne extraordinariamente e
o Padre Albino Alves Tavares informa ter recebido o
Ofício n.º 49 – 1.ª Repartição do Governo Civil, de
26 de Março de 1872 autorizando a Junta de Paróquia
a distractar o resto da importância necessária ao
pagamento da conclusão do cemitério.
Levadas a efeito
duas arrematações, não apareceu nenhum concorrente
para terminar a tarefa encetada. Dois irmãos
pedreiros aceitaram acabá-la, e assim a Junta
requereu licença ao Governador Civil para fazer as
obras por administração directa. Recebida a resposta
afirmativa em 4 de Agosto de 1872, recomeçaram os
trabalhos que novamente se viram dificultados pela
falta de dinheiro suficiente para os mesmos. O Padre
Albino recorreu então aos devedores da Fábrica da
Igreja, depois de devidamente autorizado pela Junta
de Paróquia em 18 de Dezembro de 1872, a fim de
serem aplicadas as suas dívidas à conclusão do
cemitério, mas não viu realizado o seu sonho:
faleceu em 3 de Maio de 1873, com 45 anos de idade,
e foi sepultado, naturalmente, no adro da Igreja.
Sucedeu-lhe o
Padre Manuel Coelho da Fonseca, que procedeu à
benção do novo cemitério em 4 de Junho de 1874,
depois de obtida a licença do Prelado de Coimbra. A
injusta lei dos homens, porém, ditou que uma parte
do cemitério não seria benzida porque “destinada aos
abortos e defuntos sem direito a sepultura
eclesiástica”, o que, no entanto, não libertava os
familiares daqueles de pagarem, pelo sepultamento,
600, 400, 300, 240, 200 e 100 reis, consoante as
circunstâncias.
E o primeiro
enterro não se fez tardar. O óbito ocorreu em
Oliveira no dia 25 de junho de 1874, às 8 horas da
tarde: o finado chamava-se José Pires, tinha 60
anos de idade e foi o primeiro de uma série de 22
que se encontram registados ao longo desse ano de
1874.
Este cemitério
não tinha, no entanto, a dimensão que hoje lhe
conhecemos.
O desaterro que
cavou um profundo fosso entre a capela de Santa Ana
e o cemitério, desaterro provocado pela construção
da estrada distrital n.º 230, deixou o cemitério sem
acesso. Em sessão de 12 de Julho de 1876 a Junta de
Paróquia reuniu e deliberou solicitar ao Director
das Obras Públicas do Distrito de Coimbra a
construção de uma escada de acesso em frente ao
pórtico, com muros laterais. O pedido foi aceite e
atendido.
Em Fevereiro de
1912 procedeu-se a uma primeira ampliação, pequena,
em terreno gratuitamente cedido pelo senhor
Conselheiro Dr. Francisco Cabral Metelo.
O tempo mostrou,
depois, que a escada de acesso ao cemitério
construída frente ao pórtico não se mostrava muito
funcional. E em sessão de 17 de Agosto de 1913 a
Comissão Paroquial deliberou mudar a escada para o
lado sul do átrio e construir um muro de suporte.
Não encontramos acta que nos elucide sobre os
preços, os prazos e o arrematante. Mas lá estão o
muro e a escada, muito bem feitos.
Em 1912 os
membros da Junta tinham sido bem modestos no seu
pedir. Com efeito, em 1923, novamente o senhor
Conselheiro Cabral Metelo voltou a ser solicitado no
sentido de conceder mais terreno para uma segunda
ampliação do cemitério, solicitação aceite de
imediato, pedindo em troca que lhe reservassem uma
sepultura perpétua “para aplicar como lhe aprouver.”
Em 9 de Agosto de 1925 estava tudo terminado e
foram autorizados os pagamentos dos trabalhos:
5.330$00, de aumento dos muros e respectiva caiação.
A sebe que
enfeita o átrio foi plantada em 1949. Ainda nesse
ano o senhor Manuel Rodrigues Lagos pagou as obras
de limpeza dos muros e paredes de alvenaria, pintura
da porta de entrada e limpeza de socos e capeados. O
gradeamento, colocado bastante depois, ficou a
dever-se à generosidade do referido benfeitor
oliveirense, receoso que algum incauto caísse do
muro para baixo.
Ultimamente, a
Junta de Freguesia efectuou a pavimentação a cubos
da rua interior do cemitério e a Câmara Municipal,
devido à urbanização do bairro de Santa Ana e do
terreno da feira, procedeu a uma terraplanagem
bastante grande, deixando apenas no local o depósito
das águas que então abastecia a vila, e construindo
uma sapata de cimento para suporte das cantarias e
muros rusticados. As duas entidades procederam ainda
à electrificação do cemitério e à reparação total da
capela.
Além deste
Cemitério Paroquial da Freguesia de Oliveira do
Hospital existe ainda o Cemitério Municipal,
construído em 1979/1980, em terrenos doados pelo
senhor Manuel Rodrigues Lagos.
CAPELA DOS
FERREIROS – MONUMENTO NACIONAL
SÉC. XIII – 1279
Entra-se nela
através do corpo da Igreja Matriz, por porta em
ogiva guarnecida de ferro forjado.
Interiormente,
pavimento, paredes e tecto em abóbada de berço
quebrado, tudo em pedra de granito, lisa e
aparelhada, encerram um verdadeiro museu de
escultura. Na parede do lado voltado a Norte, dois
óculos largos que se vão estreitando de forma
quadrilobada. Exteriormente esta parede apresenta-se
também em fiadas de pedra aparelhada e guarnecida de
contraforte em dois degraus, em simetria com os
óculos.
E o conteúdo da
capela?
Do nosso lado
esquerdo, quando se entra, dois túmulos, um ao lado
do outro, com a cabeceira a Poente, guardando os
restos mortais dos fundadores. São constituídos de
duas arcas lisas de granito, assentes em leões de
granito também, e tendo como tampas duas pedras de
calcário de Portunhos. Nelas, o escultor, o mestre
aragonês Pero (ou Pedro), esculpiu primorosamente as
figuras de Domingos Joanes e de sua esposa Domingas
Sabachais: ele, vigoroso, austero e lutador, de
longa cabeleira e barbas pendentes, de espada na
mão esquerda e na direita umas luvas, os pés
apoiados no dorso de um cão. De junto da cabeça
emerge um anjo, e do lado direito o brasão com a
cruz em X, Cruz de Santo André, e quatro
flores-de-lis; ela, fina e graciosa, repousa
tranquila, reclinada para o lado do marido, os pés
igualmente apoiados no dorso de um cão. São duas
primorosas estátuas jacentes, finamente lavradas.
Contrastam com as arcas rudes e sem ornamentos, e
com os leões, quase grotescos, que lhes servem de
suporte.
Nas tampas
fúnebres, e no retábulo, existem letreiros
insculpidos em escrita cursiva. Os de mais forte
gravação são os do altar e os dos nomes das figuras
jacentes, no tipo dos sécs. XV-XVI, aventando-se a
possibilidade de tais inscrições terem sido
realizadas por ordem do grão-mestre de Rodes, André
do Amaral, quando em 1515 renovou a carta de brasão,
incluindo neste as armas do seu 5.º avô, o Domingos
Joanes.
Na parede Poente,
em cima, uma grosseira mísula e em cima dela a
estátua equestre do cavaleiro, atribuída igualmente
ao mestre aragonês, representando Domingos Joanes
equipado e pronto para entrar em combate: de
armadura, com os arreios de equitação e maça de
armas, destinado a parada militar, armado de um
escudo com a heráldica familiar de flores-de-lis. É
exemplar único, vindo desse recuado séc. XIII, e de
valor incalculável. No Museu Machado de Castro, em
Coimbra, existe uma réplica, executada com tanta
perfeição que tem suscitado algumas interrogações
(Qual o “original”?).
Voltando-nos para
o lado direito, deparamos com o altar, constituído
por espaçosa mesa de granito, assente sobre duas
colunas desiguais que não terão sido feitas para
ali. Sobre o altar, o retábulo gótico de pedra
calcária, e nele, em alto relevo, Domingos Joanes e
Domingas Sabachais em devota veneração da Senhora da
Graça, um anjo de cada lado e ainda o sol e a lua.
Em cima uma legenda dizendo: “Deus he Grande”. Mais
acima ainda, outra imagem de Nossa Senhora da Graça,
mas esta muito mais linda. Por detrás, uma fresta de
ligação à Capela de S. Brás, formando como que um
nicho da veneranda imagem.
Desta capela
disse o escritor Miguel Torga: “Quem quiser ver a
Idade Média ao natural, venha aqui, a esta Capela
dos Ferreiros. A cavalaria, a religião e o amor,
tudo na sua pureza natural.”
Não será
inoportuno falar das “andanças do Cavaleiro”, a
estátua equestre que foi há muito baptizada também
como “Cavaleiro de Oliveira” e que representa o
grande ex-libris desta freguesia:
Em Lisboa,
figurou na Exposição do Mundo Português, e, mais
recentemente, na Europália. No Porto, numa exposição
no Soares dos Reis, com subsequente partida para uma
grande exposição em Madrid.
CAPELA DE SANTO
ANTÃO
Trata-se
de uma capela não muito antiga, erigida já no séc.
XIX, embora a imagem de Santo Antão, presentemente
na sacristia da Igreja Matriz, pareça ser do séc.
XVIII.
Construída mesmo ao lado de Santa Ana, mas em plano
inferior, no local onde hoje se situa o parque
infantil, parece ter sido edificada com materiais da
velha capela de S. João, e daí o facto de o
inventário de 1884, sob o nº. 2, mencionar “uma
pequena capela denominada de S. João”.
Em
sessão de 6 de Fevereiro de 1916 foi dada
autorização à Junta de Freguesia para transferir a
capela para junto do cemitério, continuando, no
entanto, na posse da Confraria de Santa Ana. A
ampliação do cemitério obrigou a reconstruí-la, não
junto mas dentro do próprio cemitério, o que
aconteceu até 1922, quando em 31 de Dezembro foram
feitos os últimos pagamentos pela sua transferência.
Em Maio de 1999,
e para lhe devolver o carácter sagrado, sofreu
profundas obras de restauro, feitas pela Câmara
Municipal em colaboração com a Junta de Freguesia,
tendo esta última adquirido também os bancos em
madeira e uma belíssima e muito valiosa imagem de
Nossa Senhora das Dores, em madeira, para o seu
interior.
Nas povoações
anexas, a freguesia de Oliveira do Hospital conserva
ainda outros edifícios religiosos, como sejam:
Em Gavinhos de
Cima, a Capela de Nossa Senhora da Graça.
Em Gavinhos de
Baixo, a Capela de S. Sebastião (sécs.
XVII-XVIII); a Capela do Bussaquito e a Capela
de Nossa Senhora do Carmo (esta última
pertencente à família Lagos).
Em Vendas de
Gavinhos, os Oratórios de Nossa Senhora de Fátima
e de Nossa Senhora dos Aflitos, ou
Senhora dos Caminhos.
Em Gramaços, a
Capela de Nossa Senhora da Luz e a Capela de Santa
Eufêmea, esta última, do séc. XVIII,
particular da família Vaz Pato.
As alminhas
marcam também presença na nossa freguesia. São
pequenos e singelos monumentos de piedade religiosa,
localizados em caminhos, encruzilhadas, por montes e
vales, e feitos normalmente em pedra. Objectivavam
rezar “às almas que penam no purgatório” e eram
outrora muito utilizadas por pessoas que, ao passar
diante do monumento, faziam a “reza às almas
penadas”:
“Dai-lhes,
Senhor, o eterno descanso, entre os esplendores da
Luz Perpétua. Fazei que descansem em paz. Amen. Pai
Nosso. Avé Maria.”
Podemos apreciar
várias alminhas situadas em diversos pontos
da freguesia; e, mesmo na cidade, encontramos uma no
exterior do cemitério novo, outra no jardim da casa
paroquial e uma outra no interior da Câmara
Municipal.
A Junta de
Freguesia tem sempre mostrado grande disponibilidade
para, quando solicitada a intervir, contribuir nas
despesas de reparação e conservação do nosso
património histórico.